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Elas dominam as entrevistas

por SIC - Blog, em 27.05.11

Credibilidade e profissionalismo são a imagem de marca das jornalistas que conduzem o espaço da entrevista na RTP, SIC e TVI. Uma realidade que já é tradição na televisão em Portugal.

Nas redacções, nos principais blocos informativos e na condução das grandes-entrevistas, a presença feminina impõe-se cada vez mais. Fátima Campos Ferreira, na RTP 1, Clara de Sousa, na SIC, e Judite de Sousa, na TVI, são a prova de como as mulheres estão a dominar o espaço mediático das televisões. A actualidade política, com os especiais informativos dedicados às eleições legislativas, comprovam o peso que as mulheres têm na televisão nacional.

À Correio TV, todas as protagonistas rejeitam que o género tenha influenciado esta realidade. Apesar disso, a verdade é que estas três jornalistas são os rostos escolhidos pelos canais para a maioria das grandes-entrevistas. Se Clara de Sousa e Judite de Sousa lideraram os debates entre os líderes parlamentares, Fátima Campos Ferreira foi responsável por um ciclo de dez entrevistas a personalidades como Mário Soares, Jorge Sampaio, Ramalho Eanes, Ricardo Salgado e Belmiro de Azevedo.

Ainda nesta semana, por exemplo, entrevistou Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do FC Porto. Judite de Sousa, que recusou falar com a Correio TV, tal como José Alberto Carvalho, director de Informação da TVI, assim que chegou a Queluz arrancou com uma ronda de entrevistas aos principais banqueiros nacionais, precisamente na semana em que Portugal acabou por pedir ajuda externa.

Fátima Campos Ferreira diz à Correio TV que a escolha de mulheres para liderar os espaços que têm pautado as grelhas televisivas e captado a atenção da opinião pública nas últimas semanas se prende apenas com “profissionalismo“ e “credibilidade”. A jornalista da RTP, que conduz ‘Prós e Contras’ há vários anos, vai mais longe e explica que as mulheres estão “fortemente representadas” em todas as áreas da informação televisiva, com “um conjunto sólido de rostos femininos dispersos nos vários canais”.

Clara de Sousa corrobora a opinião da colega. “Há vários anos que as mulheres se assumiram na condução de noticiários e debates”, realça. Para a pivô da SIC, responsável por moderar os debates entre os líderes partidários em Carnaxide e pelas grandes-entrevistas da estação, a cobertura do actual período eleitoral não tem uma presença feminina mais forte do que os anteriores. E aponta o exemplo do jornalista Vítor Gonçalves, na RTP, escolhido para substituir uma posição anteriormente ocupada por Judite de Sousa, agora na TVI. Se as mulheres estão hoje em destaque na informação nacional, “tem tudo a ver com competência, especialização e porque trabalharam para lá chegar”, realça Clara de Sousa.

Para o director de Informação da SIC, o arranque das estações privadas, que já mostravam uma aposta clara nas jornalistas para serem o rosto dos principais noticiários, pode ajudar a explicar o fenómeno. “O aumento do número de pivôs femininos é uma tendência que se acentuou com a abertura dos canais privados, porque com apenas um canal, a RTP, havia necessidade de menos pivôs”, aponta Alcides Vieira.

Mas este responsável também não acredita que haja diferenças no trabalho desenvolvido entre eles e elas: “O pivô feminino tem características próprias de imagem e de voz, mas um bom pivô distingue-se pela vertente técnica e não por ser homem ou mulher”.

Essa é, também, a posição defendida pelo director de Informação da RTP. “Não há nenhuma diferença entre um homem e uma mulher”, diz Nuno Santos. Elas “estão cada vez mais presentes nas redacções e são excelentes do ponto de vista profissional”, sustenta. Mas “o fenómeno não começa aqui”, sublinha. “Vale a pena ter memória, porque muitos dos debates mais célebres da televisão portuguesa foram conduzidos pela Maria Elisa e a Margarida Marante”, recorda. Para o director, o debate sobre a predominância feminina nos espaços nobres da Informação “resume-se ao domínio da curiosidade”.

Se as chefias rejeitam diferenças tendo em conta o sexo dos profissionais, estão também contra a ideia de que os entrevistados possam utilizar este factor quando se preparam para um frente-a-frente televisivo. “Não me parece que haja uma postura de tolerância, da parte dos entrevistados, a uma entrevistadora”, diz o director de Informação da SIC. E exemplifica: “A Clara de Sousa, a nossa principal pivô, é uma excelente profissional, e os entrevistados preparam-se de igual forma para um trabalho com ela ou qualquer outro jornalista”.

Alcides Vieira vinca que “há entrevistadoras muito mais duras e difíceis para os entrevistados”. A existirem diferenças, refere o director de Informação da SIC, “são próprias de cada profissional”. “Cada pivô tem as suas características, a sua maneira de fazer perguntas, interpretar respostas, e a agilidade mental para colocar novas questões”, diz, acrescentando que “não é por ser uma mulher que a entrevistadora é mais branda ou o entrevistado mais tolerante”.

A jornalista de Carnaxide partilha a opinião do seu director. “Não há absolutamente diferença nenhuma de tratamento da parte dos entrevistados”, diz Clara de Sousa. E, avisa, “se tiverem essa tentação, depressa perdem a vontade, porque já ninguém pensa hoje em género. Não é por ser mulher que a entrevista vai ser mais fácil ou difícil”, adverte.

No entanto, Fátima Campos Ferreira admite que, “depois da credibilidade e profissionalismo, a sedução é um factor no jogo televisivo, que poderá ter na entrevista o seu ponto mais alto”. E reconhece que, neste jogo, “talvez o entrevistado acabe por dizer o que não tinha equacionado” perante uma mulher.

Mas, apesar da crescente presença feminina nas redacções, que todos reconhecem, e dos numerosos casos de sucesso profissional entre elas, onde se contam ainda, por exemplo, Sandra Sousa, no ‘Corredor do Poder’, na RTP1, e de Ana Lourenço, na SIC Notícias, as mulheres continuam afastadas dos cargos de direcção nas estações televisivas.

“Elas não estão lá, de facto, mas estão muito presentes nas coordenações. Não são líderes mas são fazedoras”, diz Fátima Campos Ferreira. “Os homens interessam-se mais pelo poder dominante. Mas creio que isto é ainda uma fase, e um dia as mulheres lá chegarão”, acredita a jornalista.

Para o director de Informação da RTP, “não há teorias filosóficas nem conspirativas para justificar o afastamento das mulheres dos cargos de poder”. Mas Nuno Santos reconhece que, “pela nossa estrutura sociológica, elas podem fazer outras opções e ser prejudicadas por isso a nível profissional”.

Presença habitual no mundo da política e da televisão, a realidade não surpreende Marcelo Rebelo de Sousa. “Desde há algum tempo que as mulheres se especializaram em entrevistas”, diz o comentador político. O professor aponta mulheres como Judite de Sousa, Manuela Moura Guedes ou Constança Cunha e Sá, que ocuparam cargos de direcção. “Mas ainda estamos longe da realidade dos países nórdicos. Não será este o preço a pagar por vivermos numa sociedade dominada pelos homens, sobretudo na política e na Comunicação Social?”, questiona o ex-líder do PSD.

Mas, entende Marcelo Rebelo de Sousa, na televisão, “meio tradicionalmente mais ingrato para a mulher quando envelhece”, a realidade pode mudar. E “será possível ver pivôs e entrevistadoras com mais de 55 anos a competirem com homens e a assumir cargos de direcção”.

Dentro de cinco a dez anos e passada a crise, “será mais fácil fazer vingar regras e práticas que permitam às mulheres maior proximidade de igualdade de condições de trabalho, em geral, e nos sectores mais reservados aos homens em particular”, defende o professor Marcelo, que tem uma opinião convicta: “Presentemente, os melhores entrevistadores são mulheres. Pura e simplesmente”.

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publicado às 22:36




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